sábado, 3 de setembro de 2016

Pelo prazer de colocá-los no Lattes


"Madamina, il catalogo è questo
delle belle che amò il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt’io.
osservate, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta,
in Almagna duecento e trentuna,
cento in Francia, in Turchia novantuna,
ma in Ispagna son già mille e tre!
V’han fra queste contadine,
cameriere e cittadine,
v’han contesse, baronesse,
marchesane, principesse,
e v’han donne d’ogni grado,
d’ogni forma, d’ogni età.
Nella bionda egli ha l’usanza
di lodar la gentilezza,
nella bruna la costanza,
nella bianca la dolcezza.
Vuol d’inverno la grassotta,
vuol d’estate la magrotta;
è la grande maestosa,
la piccina è ognor vezzosa...
Delle vecchie fa conquista
pel piacer di porle in lista:
sua passion predominante
è la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
se sia brutta, se sia bella;
purché porti la gonnella,
voi sapete quel che fa! "
Don Giovanni: Ato I - Cena V, Mozart

Don Giovanni talvez seja uma das mais completas obras de arte da humanidade, pois reúne tantos elementos harmonizados, da crítica social ao terror, passando pela comédia, pelo romance e terminando na tragédia e esse enredo extravagante é costurado com música divina. 

Após ter ouvido a palestra do Gilson Volpato no encerramento do Congresso de Iniciação Científica de Botucatu e sua visão sobre pesquisadores e cientistas, e sobre o papel mais elevado de que os cientistas, por ele definido como sendo os indivíduos empenhados na busca pelos modelos mais profundos e impactantes para desvendar a natureza. Não é possível deixar de se enlevar pelas música dessas altas esferas.

Por outro lado, contraponho a minha trajetória pelo mundo da ciência, que muito menos nobre, talvez mereça alguma descrição. Ao longo de minha vida, sempre estive ligado a ciência, quando pequeno preferia ganhar de presente laboratórios de química do que carrinhos, sempre preferi livros a roupas. Após as inevitáveis incertezas do ensino médio, uma vez na  universidade nunca mais tive qualquer dúvida de que trabalharia como cientista.

Ao longo dos anos me envolvi de forma compulsiva em todos os tipos de empreitadas científicas: iniciação científica, mestrado, doutorado, professor, orientador, burocrata, revisor, e sabe-se lá mais o quê. Também percorri de forma irresponsável uma infinidade de áreas do conhecimento, física, matemática, computação, medicina, ecologia, genética, ensino, história da ciência. E publiquei em várias dessas áreas e com vários colaboradores, amigos, inimigos, minha mulher, desconhecidos e com quem mais se dispusesse a tanto. Nunca fui seletivo, trabalhei com problemas bonitos, feios, interessantes, inúteis, úteis, impactantes e irrelevantes.

E ao longo desses anos todos, fui desenvolvendo uma estranha fixação pelas diferentes partes do processo. Por exemplo a arte de representar uma idéia em um gráfico, isso envolve uma série de pequenas decisões, o tamanho dos tipos, forma e cor das linhas, sem esquecer do essencial, a escolha do que representar. Passando pela formatação do texto, a escritura da carta de apresentação de um artigo, as batalhas com os revisores, a orientação dos alunos para que eles produzam suas próprias idéias. Mas mesmo coisas menos nobres, como organizar eventos, revisar o trabalho de outros, fui aprendendo a usufruir. Obviamente existem coisas que seguem sendo  desagradáveis como a prestação de contas, mas felizmente a memória seletiva nos ajuda a esquecer.

Os artigos que publiquei formam uma estrutura na minha existência, são eles que organizam na minha memória onde estava e o que fazia em determinado momento, muito mais do que as alegrias e tristezas da nossa existência humana. Os momentos críticos dos artigos, quando as idéias se cristalizam e se organizam são lembrados com riqueza extravagante de detalhes.

Os artigos tem uma vida própria alguns são esquecidos, outros lembrados com alguma frequência. Qualquer citação em algum lugar recôndido do cosmos, nos provê de alguns breves instantes de alegria. São como apostas que fazemos para atingir a eternidade, para fixar em algum canto do conhecimento uma marca indelével.

Mas uma vida é tempo curto demais para julgar a relevância de uma idéia, se a transitoriedade é característica de todo o conhecimento humano, a aferição precisa da relevância é um exercício de futilidade. Outra vantagem é que na ciência, ainda que a idade seja cruel com a nossa capacidade de abandonar idéias consolidadas, os mais experientes são  indispensáveis para contextualizar o que está sendo produzido e atuam como guias para que as novas idéias possam criar raízes e permitir que o novo suplante o velho e não sigamos reinventando o passado. Como é doce nossa vingança, quando um orientando  nos conta uma novidade e nos reconhecemos nela uma idéia que nos foi apresentada nos verdes anos e conseguimos reconstruir na nossa memória a trajetória que esse meme percorreu, seus anos dourados, sua decadência e sua redescoberta em um contexto totalmente novo. É como a chuva na caatinga, em questão de horas a aridez é substituída por um campo verdejante. 

As conquistas de Don Giovanni são meticulosamente anotadas por Leporello, o cavalariço do nosso herói. A ária que cito na abertura é cantada por ele (para se convencer que óperas podem ser fantásticas assista essa ária em https://www.youtube.com/watch?v=Gp11bweiOA8, a ária inicia aos 27 minutos). E com alguma licença poética, podemos reconhecer nesses versos uma espécie de Currículo Lattes, que com muito mais beleza enumera e classifica as grandes conquista do mestre, só que nesse caso os trabalhos científicos são substituídos por mulheres, que tão industriosamente foram seduzidas. 


A ciência é um evento social, sofre de muitas das vicissitudes de outras áreas menos espiritualizadas de atividade humana. Mas tem suas particularidades, os cientistas mesmo os mais enfadonhos são figuras extravagantes, todos eles vivem em algum lugar das bordas do fenômeno humano, seja pela sua vaidade em coisas que para o resto da humanidade são irrelevantes, seja pelos sacrifícios que impõe a si mesmos, seus alunos e familiares para atingir objetivos que podem mudar o mundo ou serem completamente esquecidos. E como em qualquer profissão temos as piadas, ah o humor da ciência! Ácido, sarcástico, profundo e revelador, especialmente quando é compartilhado em algum lugar exótico acompanhado de cerveja gelada em profusão e alguns acepipes. 


Don Giovanni é no final uma tragédia, as peripécias do personagem principal não atraem nada mais do que dor para si e para muitos dos que lhe acompanham. As infidelidades de Don Giovanni são a causa de sua desgraça, felizmente para mim no mundo científico ainda que a inconstância, a frivolidade não sejam muito bem vistas, seguem possuindo um papel social. Ainda que desdenhados, aqueles que como eu, inadvertidamente buscam saber pouco sobre muitas coisas, são ouvidos em casos de necessidade, por exemplo quando alguém precisa explicar a um biólogo uma idéia computacional, ou biologia a um cientista da computação.

Mas a questão fundamental que todos os que querem se embrenhar na ciência devem responder, segue sendo a da minha professora Victória. Quando ela nos condenava a longas horas de desespero na companhia de suas provas, perguntava "Estão se divertindo? Porque a partir de agora só piora. Se não estão se divertindo vão fazer outra coisa, pois a diversão é a única vantagem de ser cientista." Ou seja independente de suas escolhas, se você quiser perseguir uma idéia revolucionária, produzir artigos contendo pequenas evoluções, ser um grande especialista ou generalista, trate de se divertir, pois senão não vale a pena. Fazer ciência sem paixão é tarefa impossível.  

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